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sábado, 11 de agosto de 2012

ATLANTIDA A VERDADE



A VERDADE SOBRE ATLANTIDA

A História do Mito Editar

Platão, arte romana
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Cabeça do faraó Amásis II (Ahmés-Sineit, para os egípcios), de Sais, durante cujo reinado, segundo Platão, Sólon teria visitado o Egito
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Platão escreveu que Sólon, em uma viagem ao Egito, teria ouvido de um sacerdote de Sais, no delta do Nilo (então capital do Egito), a história de Atlântida e de como fora derrotada pela Atenas de seu tempo. Sólon teria contado essa história a Drópides (tradicionalmente considerado seu irmão, embora Platão não mencione esse parentesco) que, por sua vez, a contou ao filho Crítias (segundo com esse nome na família). Este a teria contado ao neto do mesmo nome (Crítias III), e este a seu próprio neto (Crítias IV), tio em segundo grau de Platão. O filósofo conta nos diálogos Timeu eCrítias como teria ouvido essa história do tio - morto décadas antes, ao tentar restaurar a oligarquia dos "Trinta Tiranos", da qual participou.
Entretanto, o contexto dessa narrativa na obra filosófica de Platão indica claramente que se trata de mais um de seus muitos mitos filosóficos, uma metáfora para expressar um conceito, neste caso ético e político.
Os fatos narrados teriam acontecido nove mil anos antes da viagem de Sólon, durante o reinado do faraó Amásis - uma referência um tanto inconsistente, pois Sólon provavelmente teria feito essa viagem entre 593 e 583 a.C., enquanto Amásis reinou de 570 a.C. a 526 a.C.
Platão descreve Atlântida como uma superpotência agressiva e conquistadora nadando em luxo - uma versão muito ampliada e exagerada do imperialismo ateniense anterior à guerra do Peloponeso - que, apesar disso é derrotada ao tentar expandir demais seus domínios, como se deu com Atenas ao tentar conquistar a Sicília. E quem a derrota é uma Atenas mítica de há milhares de anos, uma cidade pequena, sóbria e bem disciplinada, à imagem e semelhança da polis ideal que ele descreveu emA República (que, em vários aspectos, parece uma versão aperfeiçoada da Esparta que derrotou a Atenas real). O mito de Atlântida contrapõe um ideal de Atenas contra outro, saindo vitorioso o ideal platônico.
A narrativa de Platão foi escrita poucos anos depois de 373 a.C., quando Helike, uma importante cidade-estado do norte do Peloponeso, líder da liga Acaia, de fato afundou da noite para o dia em conseqüência de um terremoto, matando todos os seus habitantes. A notícia, que certamente teve grande impacto em Atenas, provavelmente inspirou Platão e tornou o mito verossímil para seus contemporâneos.
Tudo indica que a concepção do cenário por Platão e a história sobre Sólon foram conscientemente fictícios, mas o filósofo pode ter-se inspirado em lugares e tradições reais, adaptando-as às necessidades de sua ficção filosófica. A descrição da cidade de Atlântida lembra, em muitos aspectos, a topografia real de Cartago, a maior potência naval do Mediterrâneo em sua época. O físico alemão Rainer W. Kühne tem defendido que Platão usou três elementos históricos em seu conto: 1) uma tradição grega sobre a Atenas micênica, em sua descrição da Atenas pré-histórica, 2) os registros egípcios sobre as guerras com os Povos do Mar, para a descrição da guerra dos atlantes; e 3) uma tradição de Siracusa sobre Tartessos para a descrição da cidade e geografia da Atlântida, a mesma tradição que teria inspirado, quatro séculos antes, a descrição da Esquéria na Odisseia de Homero[1].
Gerações depois da morte de Platão, o mito passou a ser tomado ao pé da letra. Ainda na Antiguidade, por volta de 50 a.C., o historiador Diodoro da Sicília incluiu a Atlântida em sua interpretação evemerista dos mitos gregos e egípcios, tomando-a como uma nação real que teria existido no passado - aparentemente não em uma ilha do Atlântico, mas em torno da região do Atlas, na África do Norte.
Na Idade Moderna, quando a Bíblia começou a perder sua autoridade, mas a arqueologia científica e a ciência da pré-história ainda não existiam, o mito da Atlântida atraiu o interesse de pensadores em busca de uma versão alternativa das origens da humanidade e da civilização, alguns deles procurando demonstrar que sua própria pátria havia sido a Atlântida e o berço da cultura. Nesse período, muitos identificavam as Américas recém-descobertas com a Atlântida que, nessa concepção, não teria realmente afundado, mas apenas abalada por uma catástrofe após a qual perdeu o contato com o Velho Mundo.
A partir do início do século XIX, com o desenvolvimento da arqueologia e de métodos históricos mais rigorosos, que não confirmaram qualquer sinal da Atlântida ou de sua lembrança antes de Platão, o mito perdeu rapidamente sua respeitabilidade como hipótese histórica séria. Mas tornou-se cada vez mais importante para o ocultismo e o esoterismo, que prosseguiam na construção de um passado mítico alternativo à tradicional História Sagrada centrada em Canaã - e, em muitos casos, também na tentativa de identificar outro “povo eleito”, em geral o seu próprio, o europeu branco e "ariano".
Atlântida tornou-se, de um lado, origem mítica de supostos conhecimentos secretos e crenças esotéricas e, de outro, parte de uma nova mitologia que procurava justificar a hierarquia das "raças" e o domínio global das nações européias, ou mesmo de uma determinada nação. Ao longo do século XIX e início do século XX a teosofia de Helena Blavatsky e seus seguidores e dissidentes, bem supostos médiuns, clarividentes e portadores ou descobridores de conhecimentos secretos de diferentes escolas, fizeram da Atlântida retratos minuciosos, mas freqüentemente contraditórios, embora na maioria das vezes retivessem a idéia de uma ilha-continente no meio do Atlântico.
A partir dos anos 60, o mapeamento do fundo dos oceanos e a descoberta da deriva continental e da tectônica de placas tornaram geologicamente implausível a idéia de afundamento e soerguimento de continentes que embasava as teses teosóficas. Desde então, diferentes escritores procuraram outras maneiras de justificar a crença na existência real de Atlântida, localizando-a em plataformas continentais inundadas ao fim da Idade do Gelo (como nas vizinhanças da atual Indonésia), nos Andes ou mesmo na Antártida.

A Atlântida de Platão Editar

O mundo descrito por Platão no Timeu e no Crítias. A ilha de Posídon foi representada aqui com cerca de 7,5 milhões de km² (aproximadamente o tamanho da Austrália), procurando refletir o que Platão provavelmente tinha em mente com "maior que a Líbia e a Ásia juntas"
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O mapa-múndi de Hecateu (500 a.C.), mostra a concepção da época de Platão sobre a extensão da Líbia e Ásia (algo entre 6 milhões e 10 milhões de km²)
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Segundo Platão, a ilha de Atlântida estava no oceano, do lado oposto às colunas de Hércules (atual estreito de Gibraltar) e era maior que a Libia (África do Norte) e a Ásia (Menor) juntas. Outras ilhas situavam-se nas suas proximidades e, para além de Atlântida, na margem oposta do Oceano, havia um continente, que "rodea todo esse verdadeiro mar (...), ao qual se pode chamar continente no sentido próprio do termo". Quando os deuses partilharam o mundo, ela teria sido atribuída aPosídon:
Os deuses lançaram a sorte e dividiram toda a terra em lotes, maiores ou menores. Instituíram em sua própria honra cultos e sacrifícios. Foi assim que Posídon, tendo recebido como quinhão a ilha de Atlântida, instalou, em certo lugar desta ilha, os filhos que engendrara de uma mortal. Perto do mar, mas na altura do centro da ilha, havia uma planície, a mais bela, dizia-se, de todas as planícies e a mais fértil. E, perto dela, a aproximadamente 50 estádios(10 quilômetros) do seu meio, havia uma montanha de altitude mediana.
Sobre esta montanha habitava então um dos homens que, nesse país, eram originalmente nascidos da terra. Seu nome era Evenor [Εὐήνωρ, "de boas rédeas"], e vivia com uma mulher, Leucipa [Λευκίππῃ, "égua branca"]. Deram nascimento a uma única filha, Clito [Κλειτὼ, "célebre"]. A jovem atingira a idade núbil quando seu pai e sua mãe morreram. Posídon a desejou e uniu-se a ela. O deus fortificou e isolou em círculo os altos em que ela vivia. Para tanto, fez um cercado de mar e terra, pequenos e grandes círculos, uns em redor de outros. Fez dois de terra, três de mar, arredondando-os, por assim dizer, começando a partir do meio da ilha, do qual estavam sempre a igual distância. Assim, eram infranqueáveis, pois não haviam então nem batéis nem navegação. Foi o próprio Posídon que embelezou a ilha central, no que não teve dificuldade, sendo um deus. Fez jorrar de sob o solo duas fontes d’água: uma quente, outra fria, e fez crescer sobre a terra plantas nutritivas de toda espécie, em abundância.
Atlântida era, assim, atribuída a Posídon, deus da navegação e do comércio marítimo, que Platão, partidário da auto-suficiência planejada, julgava supérfluo e daninho à boa política, enquanto Atenas era atribuída a Atena, deusa da sabedoria. Ao mesmo tempo, a ilha é dotada em abundância, se não em excesso, de riquezas naturais capazes de tornar a vida mais que confortável - mas ainda assim seus habitantes a julgavam insuficiente e se lançaram a conquistar as "outras ilhas do mar" e as terras do Mediterrâneo "até o Egito e a Tirrênia". Detalha o filósofo:
Pois se muitos recursos lhes vinham de fora, por seu império, a maior parte daqueles que são necessários à vida, a própria ilha lhos fornecia. Principalmente todos os metais duros ou maleáveis que se podem extrair das minas. Em primeiro lugar, aquele do qual conhecemos antes, além do nome, a própria substância, ooricalco ("cobre da montanha"). Era extraído terra em muitos lugares da ilha: era o mais precioso, depois do ouro, dos metais que existiam naquele tempo.
Paralelamente, tudo que a floresta podia fornecer de materiais próprios ao trabalho dos carpinteiros, o fornecia com prodigalidade. Também alimentava suficientemente todos os animais domésticos ou selvagens. Mesmo a espécie dos elefantes era aí largamente representada. Com efeito, não somente a pastagem abundava para todas as outras espécies, aquelas que vivem nos lagos, nos pântanos e rios, aquelas que pascem sobre as montanhas, e nas planícies, mas regurgitava para todos, mesmo para o elefante, o maior e o mais voraz dos animais. Por outra, todas as essências aromáticas que nutrem ainda o solo, em todos os lugares, raízes, arbustos ou árvores, resinas destiladas das flores ou dos frutos, a terra então os produzia e os fazia prosperar. Dava ainda frutos cultivados, e os grãos que foram feitos para nos alimentar, dos quais tiramos as farinhas. Produzia esse fruto lenhoso, que nos fornece conjuntamente bebidas, alimentos e perfumes (azeitona), esse fruto escamoso e de difícil conservação, que foi feito para nos instruir e entreter(romã), aquele que oferecemos após a refeição da noite, para dissipar o peso do estômago e aliviar o conviva fatigado (limão).
Platão conta como a ilha foi partilhada entre os filhos de Posídon e Clito, ou Cleito:
Posídon engendrou e criou cinco gerações de filhos homens, e gêmeos. Dividiu toda a ilha Atlântida em dez partes. Ao primogênito dos gêmeos mais velhos, destinou a morada de sua mãe e o lote de terra circundante, que era o mais vasto e o melhor. Estabeleceu-o na qualidade de rei, acima de todos os outros; fez destes, príncipes vassalos e a cada um deu autoridade sobre um grande número de homens e sobre vasto território.
A todos impôs nomes: o mais velho, o rei, recebeu o nome que serviu para designar toda essa ilha e todo o mar, que se chama Atlântico, porque o nome do primeiro rei que então reinou foi Atlas [Ἄτλας, "sustentáculo"]. Seu irmão gêmeo, que nasceu depois dele, obteve na divisão a extremidade da ilha, do lado das Colunas de Hércules, defronte à região chamada Gadírica [Γαδειρικῆς, "de Cádiz"], por causa desse lugar: ele chamava-se em grego Eumelos [Εὔμηλον, "de bons rebanhos"], e na língua do país, Gadiros[Γάδειρον]. E o nome que se lhe atribuiu tornou-se aquele do país.
Vale observar que Gadiros e Gadírica fazem referem-se a τὰ Γάδειρα, Gádeira, nome grego antigo da atual cidade espanhola de Cádiz, que deriva do fenício גדר, Gadir, "muralha", "lugar amuralhado", cognato de Agadir, nome de uma cidade marroquina.
Em seguida, daqueles que vieram na segunda geração, chamou a um Anferes [Ἀμφήρη, "o que leva para cima"], ao outro Evaimon [Εὐαίμονα, "bem hábil, perito"]. Pela terceira geração, Mnéseas [Μνησέα , "o memorável"] foi o nome do primogênito, Autóctonos [Αὐτόχθονα, "da própria terra"] o do segundo. Dos da quarta geração, chamou o primeiro Elasipos [Ἐλάσιππον, "o condutor de cavalos, o cavaleiro"] e o segundo Mestor [Μήστορα, "conselheiro"]. Na quinta, o que nasceu primeiro recebeu o nome de Azaes [Ἀζάης, "o seco, o árido, o quente"] e o que veio em seguida, o nome de Diaprepes [Διαπρέπης, "notável, distinto"].
A ilha de Posídon foi assim dividida em dez reinos, entre os quais o reino fundado por Atlas, a Atlântida propriamente dita, tinha a supremacia. Cada rei exercia o poder na parte que lhe cabe, mas a autoridade dos reis uns sobre os outros e suas relações eram reguladas pelos decretos de Posídon. A tradição lhes prescrevia isso, bem como uma inscrição gravada pelos primeiros reis sobre uma estela de oricalco, que se encontra no centro da capital, no templo de Posídon.
Encontro ritual noturno dos reis de Atlântida, no interior do templo de Posídon, de Lloyd K. Townsend
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Os reis aí se reuniam a cada cinco, ou a cada seis anos, fazendo alternar regularmente os anos pares e os anos ímpares para deliberar sobre os afazeres comuns, decidir se qualquer um dentre eles cometeu qualquer infração e julgar. Quando precisavam administrar alguma justiça, atribuíam-se, mutuamente, fé da seguinte forma.
Soltavam-se touros no lugar sagrado de Posídon. Os dez reis, deixados sós, após ter rogado ao deus para lhes fazer capturar a vítima que lhes seria agradável, punham-se a caçá-la, sem armas de ferro, somente com chuços de madeira e redes. Aquele dos touros que fosse apanhado, levavam-no à estela e o faziam degolar em cima dela, como era prescrito.
Sobre a estela, além das leis, estava gravado o texto de um juramento que proferia os anátemas mais terríveis contra quem o violasse. Depois de efetuarem o sacrifício conforme suas leis e consagrarem todas as partes do touro, enchiam de sangue uma cratera e aspergeiam com um grumo deste sangue a cada um deles. O resto, lançavam ao fogo, depois de haverem feito purificações em torno da estela. Em seguida, tomando sangue com taças de ouro, na cratera, e vertendo-o no fogo, fazem o juramento de julgar em conformidade com as leis inscritas sobre a estela, castigar quem quer que as tenha violado anteriormente, não infringir voluntariamente, para o futuro, nenhuma das fórmulas da inscrição, e só comandar e obedecer em conformidade às leis de seus pais. Cada um toma essa obrigação por si mesmo e para toda sua descendência.
Depois, bebiam o sangue e remetiam a taça como ex-voto ao santuário do deus. Após o que, tomavam uma refeição e ocupavam-se das outras obrigações necessárias. Quando vinha a noite, esfriado o fogo dos sacrifícios, todos vestiam belas roupas de azul sombrio e sentavam-se no chão, sobre as cinzas de seu sacrifício sacramental. Então, na noite, depois de extintas todas as luzes em torno do santuário, julgavam e sofriam julgamento, se um deles houvesse acusado outro de ter cometido qualquer infração. Feita a justiça, gravavam suas sentenças, chegado o dia, sobre uma tábua de ouro, que consagram, como recordação, assim como suas roupas.

A cidade de Atlântida Editar

Planta esquemática da cidade de Atlântida (esq.) e detalhe dos anéis centrais (dir.), segundo a descrição de Platão
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Concepção artística do templo de Posídon imaginado por Platão
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O isolamento em que o deus quis deixar a cidade, infranqueável a navios, foi rompido pelos descendentes:
Recolhendo sobre seu solo todas essas riquezas, os habitantes da Atlântida construíram templos, os palácios dos reis, os portos, as docas secas, e embelezaram assim todo o resto do país na seguinte ordem. Sobre os braços de mar circulares, que rodeavam a velha cidade materna, logo lançaram pontes e abriram uma rota para fora e para as moradas reais. (...) Fizeram, começando pelo mar, um canal de três pletros (100 metros) de largura, cem pés (30 metros) de profundidade e cinquenta estádios (dez quilômetros) de comprimento, e levaram-no até o braço de mar circular mais exterior. Para as naus vindas de alto-mar, abriram uma entrada, como num porto. Aí abriram uma enseada, suficiente para que os grandes navios pudessem penetrar.
A maior das barreiras de água, aquela onde penetra o mar, tem largura de três estádios (600 metros), e a de terra que se lhe seguia tem igual largura. No segundo círculo, a barreira de água tem dois estádios (400 metros) largura e a barreira de terra tem ainda uma largura igual. Mas a barreira de água que rodeia imediatamente a ilha central tem só um estádio (200 metros). A ilha, na qual se encontrava o palácio dos reis, tem um diâmetro de cinco estádios (um quilômetro). A ilha, as barreiras e a ponte - que tinha a largura de um pletro (33 metros) - circundavam inteiramente de um muro de pedra circular. Puseram torres e portas sobre as pontes em todos os lugares por onde passava o mar. Tomaram a pedra necessária de sob a periferia da ilha central e de sob as barreiras, no exterior e no interior. Havia da branca, da negra e da vermelha.
Ao mesmo tempo que extraíam a pedra, cavaram dentro da ilha duas bacias para navios, com o próprio rochedo como teto. E, das construções, umas são simples, e em outras, misturam as espécies de pedras e variam as cores, para o prazer dos olhos, e dão-lhes desta maneira uma aparência naturalmente aprazível. O muro que rodeia a barreira mais externa foi revestido, em toda a volta, de cobre, que lhe serviu de reboco. Recobriram de estanho fundido a barreira interior e, quanto àquela que rodeava a própria Acrópole, guarneceram-na de oricalco, que tem reflexos de fogo.
Construídas como barreiras para separar e proteger Clito e sua descendência do mundo exterior, os círculos de terra e água passaram a ser canal de comunicação e abrigo para os palácios os exércitos e as frotas de Atlântida: nos obstáculos de terra que separavam os círculos d'água, na altura das pontes, abriram passagens, tais que só uma trirreme pudesse passar de um círculo para outro, e cobriram essas passagens com tetos, tão bem que a navegação aí era subterrânea, pois os parapeitos dos círculos de terra se elevam suficientemente acima do mar.
Platão descreve em detalhes a ocupação dos círculos e, em especial, o templo de Posídon construído no centro:
O palácio real, no interior da Acrópole tinha a seguinte disposição. No meio da Acrópole, elevava-se o templo consagrado, nesse mesmo lugar, a Clito e a Posídon. O acesso era interditado, e era rodeado de um fecho de ouro. Foi lá que de início Clito e Posídon conceberam e deram à luz a raça dos dez chefes das dinastias reais. Lá, a cada ano, vinha-se das dez províncias do país oferecer a cada um desses deuses os sacrifícios da estação.
O santuário próprio de Posídon tinha o comprimento de um estádio (200 metros), a largura de três pletros(100 metros) e uma altura proporcionada. Sua aparência tinha algo de bárbaro. Revestiram de prata todo o exterior do santuário, exceto as arestas de espigão, e estas arestas eram de ouro. No interior, a cobertura era toda de marfim e inteiramente ornada de ouro, prata e oricalco. Os muros, as colunas, o pavimento, guarneceram-no de oricalco. Aí colocaram estátuas de ouro: o deus de pé sobre seu carro, atrelado com seis cavalos alados, e era tão grande que o cimo de sua cabeça tocava o teto. Em círculo, em torno dele, cem nereidas sobre delfins. Havia também no interior grande quantidade de estátuas outras, oferecidas por particulares. Em torno do santuário, no exterior, erguiam-se, em ouro, as efígies de todas as mulheres dos dez reis e de todos os descendentes que engendraram, e numerosas outras grandes estátuas votivas de reis e de particulares, originárias da cidade mesma, ou de países estrangeiros sobre os quais tinham soberania. Por suas dimensões e por seu trabalho, o altar respondia a esse esplendor, e o palácio real era proporcionado à grandeza do império e à riqueza dos ornamentos do santuário.
Quanto aos mananciais, o de água fria e o de água quente, ambos de generosa abundância e maravilhosamente adequados para uso, pela amenidade e virtudes de suas águas, eles os utilizavam, dispondo em torno deles construções e plantações apropriadas à natureza das águas. Instalavam em redor tanques, uns a céu aberto, outros cobertos, destinados aos banhos quentes no inverno: havia, separados, os banhos reais e os dos particulares, outros para as mulheres, para os cavalos e para as outras alimárias, cada um com a decoração apropriada.
A água daí proveniente, conduziam-na ao bosque sagrado de Posídon. Este bosque, graças à virtude do solo, compreendia árvores de todas as essências, de beleza e altura divinas. Daí, faziam correr a água para as barreiras exteriores por canalizações construídas ao longo das pontes.
Desse lado, foram construídos numerosos templos para muitos deuses e jardins e ginásios para os homens, e picadeiros para os cavalos. Estes foram construídos à parte nas ilhas anulares, formadas pelas barreiras. Dentre outros, para o meio da maior das ilhas, reservavam, para as corridas de cavalos, um picadeiro da largura de um estádio e o bastante longo para permitir aos cavalos fazer, na corrida, a volta completa da barreira. Em derredor, por toda a extensão, a distâncias regulares, havia casernas para quase todo o efetivo da guarda do imperador. O melhor corpo de tropa estava alojado na menor das barreiras, a mais próxima da Acrópole. E para aqueles que se distinguiam dentre todos por sua fidelidade, foram-lhes afetados alojamentos no interior da Acrópole, perto do palácio imperial. Os arsenais estavam plenos de navios de guerra e todos os acessórios necessários para armá-las, e o todo era postado em perfeita ordem.
Enquanto o palácio e suas dependências ocupavam a ilha original e suas barreiras, a cidade propriamente dita crescia para além dos limites da última barreira, ocupando uma área com cerca de dez quilômetros de raio:
Quando se atravessavam as portas exteriores, em número de três, encontrava-se uma muralha circular, começando pelo mar, e mantendo a distância de cinquenta estádios (dez quilômetros) da maior barreira, que formava o maior porto. Esta muralha vinha se fechar sobre si mesma na garganta do canal que se abria do lado do mar. Era totalmente coberta de numerosas casas, umas ao lado das outras. Quanto ao canal e ao porto principal, regurgitavam de naus e mercadores vindos de todos os lugares. Sua multidão causava aí, dia e noite, um contínuo burburinho de vozes, um tumulto incessante e diverso.